Acho
que toda a minha vida tentei ser a menina perfeita, que não erra, a
menina que sempre gostou de ajudar as pessoas, que tentava dar o seu
melhor na escola, a menina que tinha montes de amigos e que era
adorada por todas as pessoas. Iludi-me com isso, realmente era raro
eu errar e era raro a pessoa que não gostava de mim, mas à medida
que comecei a crescer, descobri pessoas que não gostavam de mim,
conheci pessoas que gozavam comigo, conheci a dor pela primeira vez,
no entanto continuava a achar que grande maioria continuaria a
adorar-me, porque eu continuava a ser eu, continuei a tentar fazer
tudo certinho e bem feito, continuei a tentar ser boa aluna,
continuei a crescer... O meu pai adoeceu, quando ele foi parar ao
hóspital, a frase que eu mais repetia era “ Se o meu pai morrer eu
vou mudar completamente, vão deixar de conhecer a Carolina”, e
realmente foi o que aconteceu...Nunca pensei que eu fosse mesmo capaz
de mudar, mas a dor de perder um pai, é tão grande, e a saudade de
o abraçar, a saudade de o ver a entrar em casa, a saudade de passear
com ele, jogar futebol, a saudade de ouvir um “ és o meu orgulho”,
é tudo tão doloroso, que mesmo sem eu querer, acabei por mudar, não
que eu tenha mudado tudo, mas... Tornei-me uma pessoa super sensível
e que basta um sopro para quebrar o meu coração, e por isso senti
necessidade de criar uma armadura, uma mascara, algo que esconde o
meu interior frágil, e é por isso que sou bruta, por vezes diria
cruel, e agressiva, não que seja para magoar os outros, nem para os
fazer sofrer, mas para me defender a mim, e para que não vejam a
minha parte fraca... Sempre fui de dar o braço a torcer, sempre que
alguém se chateava eu mendigava horas e horas, que essa pessoa me
perdoasse, mesmo que a culpa nem fosse minha... Mais uma coisa em que
mudei, agora tenho o maior orgulho do mundo, não gosto de dar o
braço a torcer, e tão pouco gosto de dizer que as pessoas me fazem
realmente falta... Não é que goste da pessoa que sou, apenas não
consigo fazer melhor, cheguei a conclusão que a menina perfeita que
eu tentava ser, nunca irá existir. Normalmente sou uma pessoa que
fica calada, que tem medo de dar a sua opinião, pois pode estar
errada, o pior é que sou completamente diferente com quem não devo,
eu e a minha mãe por exemplo, temos as discussões mais ridículas
alguma vez vistas, ambas orgulhosas, ambas teimosas, ambas estúpidas,
ao ponto de ter uma discussão por causa de uma almofada. A minha
mãe, chega a dizer coisas que me magoam demasiado, diz coisas que
acho que nenhuma rapariga ou rapaz, merecem ouvir, ela teve a
indecência de me dizer à cara estendida que eu sou a grande
desilusão do meu pai e dela...A verdade é que pensei que quanto
mais passasse o tempo mais seria fácil, ter a ausência do meu pai,
a realidade ? É completamente o oposto, e sinto-me tão débil, que
tenho medo de enfrentar algo, porque sei que vou perder... Todas as
noites, estou no meu quarto, ligo o telemóvel ao carregador, meto os
fons, e que comece a deprimência, choro, choro e volto a chorar, não
que eu queira, mas é uma forma que tenho para durante o dia
conseguir estar minimamente bem, mas nem sempre o consigo... Existe
vezes em que os meus amigos estão comigo, e eu fico triste de
repente, fico aziada, deprimida, chateada com a vida, e nunca
consegui explicar o porquê, não só porque acho que ninguém o iria
querer ouvir, mas também porque é confuso... Sendo sincera, não
gosto de mim, porque não consigo agradar a toda gente, não consigo
ser o orgulho da minha mãe, não consigo ajudar todos os meus
amigos, não consigo fazê-los sorrir... Muita gente provavelmente
acharia que eu não gosto de mim pelo meu exterior, mas a realidade é
que não gosto de mim porque desde pequena que senti a necessidade de
me ir tornar na menina perfeita... E isso não é possível! Odeio
que as pessoas digam que não confiam em mim, odeio que me mintam,
prefiro que me digam a verdade e que eu fique chateada ou a chorar,
do que que me escondam uma coisa! Acho que o pior de tudo em mim, é
que eu não consigo mentir com o olhar, e nem consigo mentir quando
uma pessoa me olha nos olhos, e se eu conseguir, fico com um enorme
peso na consciência... Eu sou uma pessoa tão estranha, e eu mudei
tanto, mas tanto que me custa a acreditar que esta ainda é a
Carolina Fontes... Custa-me a olhar-me ao espelho e pensar que aquela
menina dócil, sincera, que adorava ajudar as pessoas ao seu redor,
aquela menina que não sentia ódio dentro dela, se veio a tornar
numa pessoa chateada com a vida, uma pessoa que sente ódio, sente
dor, agonia, medo... E a cima de tudo, uma pessoa que sente raiva de
si mesma... Em parte gostava de mudar, para deixar de magoar as
pessoas que amo, para deixar de desiludir as pessoas, para deixar de
ser bruta... Mas por outro lado não quero voltar a ser espezinhada,
não quero voltar a ser a menina indefesa sem protecção... Não que
agora eu seja super forte, mas aprendi a defender-me de certas
coisas... Se calhar estas discussões com a minha mãe, a morte do
meu pai, o afastamento de certos amigos... esteja tudo a acontecer
para que eu desenvolva a minha personalidade, para que eu aprenda que
na vida nada é perfeito, e que até a mais pequena das rosas
consegue ter o mais doloroso dos espinhos...
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